Tráfico de órgãos no Brasil: íntegra da entrevista com a antropóloga Nancy Scheper-Hughes

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de 08.12.2003

Revista Época

O ESQUEMA DE ISRAEL

Pesquisadora diz que o tráfico funciona há 10 anos

Por EDUARDO BURCKHARDT

Foto: Reprodução/Jane Scherr

A antropóloga americana Nancy Scheper-Hughes, da Universidade da Califórnia, trabalhou mais de dez anos no Brasil e fundou a organização Organs Watch, para investigar denúncias sobre o tráfico internacional de órgãos. No ano passado, escreveu um livro sobre o tema.

ÉPOCA – Quando a quadrilha descoberta pela polícia brasileira começou a atuar?

Nancy – Pelas nossas informações, esse esquema nasceu há dez anos em Israel. No início, buscavam doadores entre refugiados palestinos. Mas o esquema foi denunciado por jornalistas e a quadrilha passou a buscar gente na Turquia e no Leste Europeu. Há cerca de um ano, descobriram os brasileiros.

ÉPOCA – Por que realizavam os transplantes na África do Sul?

Nancy – Durante o regime do Apartheid, os médicos de lá criaram centros de excelência em transplantes para a população branca. Mas limitações do governo em bancar os tratamentos provocaram uma crise no setor. A saída para várias clínicas foi buscar pacientes no exterior, principalmente no Canadá, EUA, Japão, Arábia Saudita e Israel. Isso criou condições para que agentes também procurassem doadores fora. Sul- africanos não serviam por causa dos altos índices de contaminação por Aids no país e também pelo racismo.

ÉPOCA – Há quanto tempo existe tráfico de órgãos no Brasil?

Nancy – Pelas indicações que temos, o comércio para transplantes vem do final dos anos 70. De acordo com os cirurgiões que entrevistei, no final da ditadura militar era flagrante o tráfico velado de cadáveres, órgãos e tecidos retirados de pessoas das classes sociais e políticas mais desprezadas, com o apoio do regime militar. Um médico veterano, agregado a um grande hospital acadêmico de São Paulo, revelou que cirurgiões como ele próprio recebiam ordens para produzir cotas de órgãos de qualidade. Às vezes, eles aplicavam injeções de barbitúricos fortes e em seguida chamavam dois outros médicos acima de qualquer suspeita para testemunhar que os critérios de morte cerebral haviam sido preenchidos e que os órgãos podiam ser retirados.

ÉPOCA – E depois do período militar?

Nancy – Existe o tráfico aberto e semiclandestino de tecidos e órgãos envolvendo a corrupção de encarregados de institutos médico-legais, necrotérios, etc. Também tenho casos bem documentados no Brasil de roubo de órgãos de pacientes. Um comportamento criminoso por parte de alguns médicos, que tiram vantagem de pessoas submetidas a pequenas cirurgias para remover ao mesmo tempo uma mercadoria preciosa. Um exemplo é o caso de Laudicéia Cristina da Silva, uma jovem recepcionista de São Paulo. Em junho de 1997, um de seus rins foi retirado sem seu conhecimento durante pequena cirurgia para remoção de um cisto ovariano. O cirurgião do hospital explicou que o enorme cisto havia envolvido o rim, coisa altamente improvável. O hospital recusou-se a apresentar seus registros médicos. Laudicéia, porém, deu seguimento ao processo legal. Em julho de 2001, o Conselho de Medicina revelou para mim que o caso estava próximo de ser resolvido por acordo. Como muitos casos que investiguei, esse tipo de acordo inclui uma cláusula de sigilo. Assim, a verdadeira história nunca vem a público.

ÉPOCA – Já houve algum assédio estrangeiro direto com relação aos órgãos brasileiros?

Nancy – A primeira tentativa de conseguir um acordo oficial foi um plano proposto na década de 90 pelo doutor Thomas Starzl, da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh. Starzl propôs um convênio entre a Universidade e a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Sua instituição transferiria tecnologia de ponta em troca do fornecimento regular de fígados humanos que estivessem sobrando. A revolta do público brasileiro contra esse convênio vampiresco provocou seu cancelamento. Embora os fígados brasileiros não tenham sido entregues a Pittsburgh, muitos outros órgãos e tecidos do Terceiro Mundo chegaram aos Estados Unidos nas últimas décadas.

ÉPOCA – De que forma?

Nancy – Vou dar dois exemplos. Nos arquivos de um líder político de São Paulo encontrei documentos relativos a uma investigação policial sobre o IML local, indicando que milhares de glândulas pituitárias haviam sido retirados de cadáveres de pessoas pobres e vendidos a firmas médicas privadas nos Estados Unidos para a produção de hormônios de crescimento. Na década de 80, um professor de Pernambuco foi processado por retirar milhares de partes internas dos ouvidos de cadáveres de indigentes e vendê-los à NASA para uso em programas de treinamento espacial e de pesquisas.

ÉPOCA – Quais são as principais redes de tráfico?

Nancy – No Oriente Médio existe uma forte rede que interliga compradores de rins de Israel e Europa Ocidental e vendedores em países pobres ex-membros da antiga União Soviética. A Índia fornece órgãos a estrangeiros de muitos países e também tem um mercado interno movimentado, através do qual pessoas das castas superiores compram órgãos das castas inferiores. As Filipinas fornecem rins de favelados para pacientes do Japão, Emirados Árabes e América do Norte. A China fornece órgãos de prisioneiros executados para pacientes da Ásia e América do Norte. O Peru envia a americanos de origem latina rins adquiridos de negociantes falidos e de mulheres vindas de pequenas comunidades andinas.

ÉPOCA – O negócio é permitido em algum país?

Nancy – Não. Mas há brechas legais. A tendência mundial de obter rins de doadores não-parentes vivos é a principal culpada pelo tráfico atual, junto com a ação dos caçadores de rins e os agenciadores, alguns deles médicos. Existem hospitais privados onde a doação de rins vivos para não-parentes é permitida se for assegurado tanto pelo comprador como pelo vendedor que o acordo é voluntário. É um sistema baseado em boa-fé, a qual não se pode garantir que exista. Nos Estados Unidos há cerca de 20 centros de transplante onde se faz poucas perguntas sobre que relação existe entre doadores e compradores. Então eles se localizam uns aos outros via Internet e se preparam para responder as perguntas superficiais.

ÉPOCA – Os pacientes brasileiros vão aos EUA em busca dessa facilidade?

Nancy – O processo é diferente. Os pacientes brasileiros ricos descobrem maneiras de burlar o sistema e conseguir transplantes nos principais centros médicos dos Estados Unidos utilizando órgãos de cadáveres, raramente disponíveis para americanos sem recursos. Pacientes estrangeiros com freqüência se utilizam de intermediários para localizar uma região onde poderão chegar sem demora ao topo da lista. Às vezes, se inscrevem em três ou mais listas regionais de espera nos Estados Unidos, que é um modo legal de furar a fila.

ÉPOCA – Como funciona essa modalidade de turismo médico?

Nancy – Em Israel, onde é mais desenvolvido, os pacientes de hemodiálise entram em contato com intermediários que se passam por agentes de turismo ou pequenos empresários. Eles preparam a viagem para a África do Sul ou Europa Oriental, identificam os doadores de rins e colocam em ação os médicos para efetuar as operações. Os pacientes passam por turistas e viajam em vôos regulares ou fretados. Os doadores são instalados em clínicas ou hotéis de baixa categoria. Os intermediários recebem o dinheiro e pagam as despesas.

ÉPOCA – Quais são os preços dos órgãos e como são estabelecidos?

Nancy – Os preços seguem as discriminações e preconceitos do Primeiro Mundo em relação ao Terceiro. Um rim de doador vivo chega a alcançar US$1 mil na Índia e nas Filipinas, US$3 mil na Europa Oriental e até US$10 mil no Peru. Doadores dos Estados Unidos cobram muito mais, normalmente entre US$50 mil e US$100 mil.

ÉPOCA – Quem são os doadores mais freqüentes?

Nancy – Pobres, soldados ausentes do serviço sem permissão, refugiados políticos e econômicos, desempregados, endividados, pequenos empresários falidos, políticos fracassados, empregados domésticos que se solidarizam com o patrão, prostitutas envelhecidas e sem recursos, pessoas já envolvidas em outras atividades ilegais.

ÉPOCA – Qual é a dificuldade principal nesse tipo de investigação?

Nancy – As vítimas coagidas a vender um rim são amedrontadas e não procuram a justiça. Pacientes que compraram órgãos são levados a crer que os doadores foram bem pagos e protegidos. Os médicos que praticam esse tipo de antimedicina são inescrupulosos e poderosos. O crime organizado está profundamente entranhado nesse negócio e muitas pessoas são subornadas em troca de seu silêncio. A dificuldade principal, no entanto, é que a economia global embotou a sensibilidade tanto de médicos como de pacientes de transplante. Por isso, não vêem conflito algum em obter órgãos de pessoas em situação vulnerável. Existe um generalizado estado de espírito utilitário que reduz a ética médica à simples pergunta: Decidiram vender? Sim? Então, tudo bem. Há pouco pensamento crítico em torno das forças que podem compelir pessoas em apuros a vender a única coisa que possuem, um rim sobrando.

http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT642472-1655,00.html

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Anencéfalos: a Resolução 1752/2004 do CFM “permite” o tráfico de órgãos e a prática do homicídio

“A Organização Mundial da Saúde estima que um quinto dos 70.000 rins transplantados no mundo vêm do tráfico de órgãos” [3]


A Revista Newsweek de 19 de janeiro corrente [3] traz mais uma reportagem sobre tráfico de órgãos.

Poucas pessoas sabem deste tráfico porque a mídia recusou-se a noticiá-lo para não comprometer interesses dos lucros que gravitam em torno do sistema transplantador no Brasil: no ano de 2004, houve a realização de uma CPI do Tráfico de Órgãos que comprovou a existência de tráfico de órgãos dentro de hospitais brasileiros, retirando por completo o rótulo de “lenda urbana” sobre este assunto. Mais: esta CPI, com a qual colaboramos, não constatou apenas a venda de um dos órgãos vitais duplos de pessoas que continuavam vivendo, mas o homicídio de crianças e jovens para a retirada de todos os seus órgãos.

No decorrer destes acontecimentos, inclusive, o administrador de um hospital em Minas Gerais, onde havia caso de tráfico, conseguiu praticar “suicídio” com dois tiros na cabeça. A versão do suicídio com dois tiros foi aceita pelas autoridades e a razão pela qual ele morreu não foi investigada.

Foi constatado que o Brasil está entre os cinco países onde há maior incidência do tráfico de órgãos, junto com países como China e India.

Estes dados já eram denunciados pela antropóloga Nancy Scheper-Hughes da ONG http://sunsite.berkeley.edu/biotech/organswatch/

Neste espaço iremos disponibilizar todas as atas desta CPI de 2004.

Na coluna à direita desta página já pode ser consultada a categoria de links em “Tráfico de Órgãos”.

A Resolução 1752/2004 do CFM [1], quando “autorizou” os médicos a retirarem os órgãos dos anencéfalos para transplantes, procurou “oficializar” esta prática em um universo de pessoas (anencéfalas) altamente vulneráveis.

Esta Resolução do CFM tem um conteúdo homicida, pois causar a morte do anencéfalo encontra tipificação no artigo 121 do Código Penal.

Antes da reportagem da Revista Newsweek de 19 de jan. colocamos links relacionados com este assunto [2].

[1] https://biodireitomedicina.wordpress.com/2008/12/29/anencefalia-morte-encefalica-e-o-conselho-federal-de-medicina/

[2]https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/05/transplantes-revista-dos-anestesistas-recomenda-em-editorial-realizacao-de-anestesia-geral-nos-doadores-para-que-nao-sintam-dor-durante-a-retirada-de-seus-orgaos-se-estao-mortos-para-que-a-recomend/

[2] http://www.nazioneindiana.com/2008/12/19/il-mercato-degli-organi-il-buco-nero-della-globalizzazione/

[2] https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/18/a-dura-realidade-do-trafico-de-orgaos/

[2]https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/11/morte-encefalica-o-teste-da-apneia-somente-e-feito-se-houver-a-intencao-de-matar-o-paciente/

[3] https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/27/trafico-de-orgaos-e-uma-realidade-comprovada-no-brasil/

Celso Galli Coimbra – OABRS 11352

Link para esta página e para a reportagem da Revista Newsweek:

https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/27/trafico-de-orgaos-e-uma-realidade-comprovada-no-brasil/

Leia como é fácil o desconhecimento e a “lei da selva” promoverm absurdos de análise “jurídica”:

“Nascimento de anencéfalo pode ser útil em transplantes”

http://www.conjur.com.br/2005-dez-28/nascimento_anencefalos_util_transplantes


“The World Health Organization estimates that one fifth of the 70,000 kidneys transplanted worldwide every year come from the black market.”

http://www.newsweek.com/id/178873

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Tráfico de órgãos é uma realidade comprovada no Brasil e no exterior

A Revista Newsweek de 19 de janeiro corrente, reproduzida após estes comentários, traz mais uma reportagem sobre tráfico de órgãos.

Poucas pessoas sabem destes fatos porque a mídia recusou-se a divulgá-los para não comprometer interesses dos lucros que gravitam em torno do sistema transplantador no Brasil: no ano de 2004, houve a realização de uma CPI do Tráfico de Órgãos que comprovou a existência de tráfico de órgãos dentro de hospitais brasileiros, retirando por completo o rótulo de “lenda urbana” sobre este assunto. Mais: esta CPI, com a qual colaboramos, não constatou apenas a venda de um dos órgãos vitais duplos de pessoas que continuavam vivendo, mas o homicídio de crianças e jovens para a retirada de todos os seus órgãos. No decorrer destes acontecimentos, inclusive, o administrador de um hospital em Minas Gerais onde havia caso de tráfico conseguiu praticar “suicídio” com dois tiros na cabeça. A versão do suicídio com dois tiros foi aceita pelas autoridades e a razão pela qual ele morreu não foi investigada.

Foi constatado que o Brasil está entre os cinco países onde há maior incidência do tráfico de órgãos, junto com países como China e India.

Estes dados já eram denunciados pela antropóloga Nancy Scheper-Hughes da ONG http://sunsite.berkeley.edu/biotech/organswatch/

Neste espaço iremos disponibilizar todas as atas desta CPI. Na coluna à direita desta página pode ser consultada a categoria de links em “Tráfico de Órgãos”.

A Resolução 1752/2004 do CFM [1], quando “autorizou” os médicos a retirarem os órgãos dos anencéfalos para transplantes, procurou “oficializar” esta prática em um universo de pessoas (anencéfalas) altamente vulneráveis.

Esta Resolução do CFM tem um conteúdo homicida, pois causar a morte do anencéfalo encontra tipificação no artigo 121 do Código Penal.

Antes da reportagem da Revista Newsweek de 19 de jan. colocamos links relacionados com este assunto [2].

[1] https://biodireitomedicina.wordpress.com/2008/12/29/anencefalia-morte-encefalica-e-o-conselho-federal-de-medicina/

[2]https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/05/transplantes-revista-dos-anestesistas-recomenda-em-editorial-realizacao-de-anestesia-geral-nos-doadores-para-que-nao-sintam-dor-durante-a-retirada-de-seus-orgaos-se-estao-mortos-para-que-a-recomend/

[2] http://www.nazioneindiana.com/2008/12/19/il-mercato-degli-organi-il-buco-nero-della-globalizzazione/

[2] https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/18/a-dura-realidade-do-trafico-de-orgaos/

[2] https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/11/morte-encefalica-o-teste-da-apneia-somente-e-feito-se-houver-a-intencao-de-matar-o-paciente/

Celso Galli Coimbra – OABRS 11352

Link para esta página e para a reportagem da Revista Newsweek:

https://biodireitomedicina.wordpress.com/2009/01/27/trafico-de-orgaos-e-uma-realidade-comprovada-no-brasil/

“The World Health Organization estimates that one fifth of the 70,000 kidneys transplanted worldwide every year come from the black market.”


HEALTH

Not Just Urban Legend

Organ trafficking was long considered a myth. But now mounting evidence suggests it is a real and growing problem, even in America.

By the time her work brought her back to the United States, Nancy Scheper-Hughes had spent more than a decade tracking the illegal sale of human organs across the globe. Posing as a medical doctor in some places and a would-be kidney buyer in others, she had linked gangsters, clergymen and surgeons in a trail that led from South Africa, Brazil and other developing nations all the way back to some of her own country’s best medical facilities. So it was that on an icy February afternoon in 2003, the anthropologist from the University of California, Berkeley, found herself sitting across from a group of transplant surgeons in a small conference room at a big Philadelphia hospital.

By accident or by design, she believed, surgeons in their unit had been transplanting black-market kidneys from residents of the world’s most impoverished slums into the failing bodies of wealthy dialysis patients from Israel, Europe and the United States. According to Scheper-Hughes, the arrangements were being negotiated by an elaborate network of criminals who kept most of the money themselves. For about $150,000 per transplant, these organ brokers would reach across continents to connect buyers and sellers, whom they then guided to “broker-friendly” hospitals here in the United States (places where Scheper-Hughes says surgeons were either complicit in the scheme or willing to turn a blind eye). The brokers themselves often posed as or hired clergy to accompany their clients into the hospital and ensure that the process went smoothly. The organ sellers typically got a few thousand dollars for their troubles, plus the chance to see an American city.

As she made her case, Scheper-Hughes, a diminutive 60-something with splashes of pink in her short, grayish-brown hair, slid a bulky document across the table—nearly 60 pages of interviews she had conducted with buyers, sellers and brokers in virtually every corner of the world. “People all over were telling me that they didn’t have to go to a Third World hospital, but could get the surgery done in New York, Philadelphia or Los Angeles,” she says. “At top hospitals, with top surgeons.” In interview after interview, former transplant patients had cited the Philadelphia hospital as a good place to go for brokered transplants. Two surgeons in the room had also been named repeatedly. Scheper-Hughes had no idea if those surgeons were aware that some of their patients had bought organs illegally. She had requested the meeting so that she could call the transgression to their attention, just in case.

Hospital officials told NEWSWEEK that after meeting with Scheper-Hughes, they conducted an internal review of their transplant program. While they say they found no evidence of wrongdoing on the part of their surgeons, they did tighten some regulations, to ensure better oversight of foreign donors and recipients. “But that afternoon,” Scheper-Hughes says, “they basically threw me out.”

It’s little wonder. The exchange of human organs for cash or any other “valuable consideration” (such as a car or a vacation) is illegal in every country except Iran. Nonetheless, international organ trafficking—mostly of kidneys, but also of half-livers, eyes, skin and blood—is flourishing; the World Health Organization estimates that one fifth of the 70,000 kidneys transplanted worldwide every year come from the black market. Most of that trade can be explained by the simple laws of supply and demand. Increasing life spans, better diagnosis of kidney failure and improved surgeries that can be safely performed on even the riskiest of patients have spurred unprecedented demand for human organs. In America, the number of people in need of a transplant has nearly tripled during the past decade, topping 100,000 for the first time last October. But despite numerous media campaigns urging more people to mark the backs of their driver’s licenses, the number of traditional (deceased) organ donors has barely budged, hovering between 5,000 and 8,000 per year for the last 15 years.

In that decade and a half, a new and brutal calculus has emerged: we now know that a kidney from a living donor will keep you alive twice as long as one taken from a cadaver. And thanks to powerful antirejection drugs, that donor no longer needs to be an immediate family member (welcome news to those who would rather not risk the health of a loved one). In fact, surgeons say that a growing number of organ transplants are occurring between complete strangers. And, they acknowledge, not all those exchanges are altruistic. “Organ selling has become a global problem,” says Frank Delmonico, a surgery professor at Harvard Medical School and adviser to the WHO. “And it’s likely to get much worse unless we confront the challenges of policing it.”

For Scheper-Hughes, the biggest challenge has been convincing people that the problem exists at all. “It used to be a joke that came up at conferences and between surgeons,” she says. “In books and movies, you find these stories of people waking up in bathtubs full of ice with a scar where one of their kidneys used to be. People assumed it was just science fiction.” That assumption has proved difficult to dismantle. In the mid-1980s, rumors that Americans were kidnapping children throughout Central America only to harvest their organs led to brutal attacks on American tourists in the region. When those stories proved false, the State Department classified organ-trafficking reports under “urban legend.” Scheper-Hughes’s evidence, which is largely anecdotal and comes in part from interviews with known criminals, has not convinced department officials otherwise. “It would be impossible to successfully conceal a clandestine organ-trafficking ring,” Todd Leventhal, the department’s countermisinformation officer, wrote in a 2004 report, adding that stories like the ones Scheper-Hughes tells are “irresponsible and totally unsubstantiated.” In recent years, however, the WHO, Human Rights Watch and many transplant surgeons have broken with that view and acknowledged organ trafficking as a real problem.

At first, not even Scheper-Hughes believed the rumors. It was in the mid-1980s, during a study of infant mortality in the shantytowns of northern Brazil, that she initially caught wind of mythical “body snatcher” stories: vans of English-speaking foreigners would circle a village rounding up street kids whose bodies would later be found in trash bins removed of their livers, eyes, kidneys and hearts.

When colleagues in China, Africa and Colombia reported similar rumblings, Scheper-Hughes began poking around. Some stories—especially the ones about kidnapped children, stolen limbs and tourists murdered for organs—were clearly false. But it was also clear that slums throughout the developing world were full of AWOL soldiers, desperate parents and anxious teenage boys willing to part with a kidney or a slice of liver in exchange for cash and a chance to see the world—or at least to buy a car.

Before long, Scheper-Hughes had immersed herself in an underworld of surgeons, criminals and those eager to buy or sell whatever body parts could be spared. In Brazil, Africa and Moldova, newspapers advertised the sale and solicitation of human body parts while brokers trolled the streets with $100 bills, easily recruiting young sellers. In Istanbul, Scheper-Hughes posed as an organ buyer and talked one would-be seller down to $3,000 for his “best kidney.” In

But not all organs flowed from poor countries to rich ones; Americans, for example, were both buyers and sellers in this global market. A Kentucky woman once contacted Scheper-Hughes looking to sell her kidney or part of her liver so that she could buy some desperately needed dentures. And a Brooklyn dialysis patient purchased his kidney from Nick Rosen, an Israeli man who wanted to visit America.

Unlike some organ sellers, who told of dingy basement hospitals with less equipment than a spartan kitchen, Rosen found an organ broker through a local paper in Tel Aviv who arranged to have the transplant done at Mount Sinai Medical Center in New York. An amateur filmmaker, Rosen documented a portion of his odyssey on camera and sent the film to Scheper-Hughes, whose research he had read about online. The video excerpt that NEWSWEEK viewed shows Rosen meeting his broker and buyer in a New York coffee shop where they haggle over price, then entering Mount Sinai and talking with surgeons—one of whom asks him to put the camera away. Finally, after displaying his post-surgery scars for the camera, Rosen is seen rolling across a hotel bed covered in $20 bills; he says he was paid $15,000. (Brokers, on the other hand, typically net around $50,000 per transplant, after travel and other expenses. In America, some insurance plans will cover at least a portion of the donor’s medical expenses.)

The money changed hands outside the hospital’s corridors, and Rosen says that he deliberately misled the Mount Sinai doctors, but that no one there challenged him. “One hospital in Maryland screened us out,” he says. Tom Diflo, a transplant surgeon at New York University’s Langone Medical Center, points out that many would-be donors do not pass the psychological screening, and that attempting to film the event would probably have set off an alarm bell or two. “But the doctors at Mount Sinai were not very curious about me,” Rosen says. “We told them I was a close friend of the guy who I sold my kidney to, and that I was donating altruistically, and that was pretty much the end of it.” Citing privacy laws, Mount Sinai officials declined to comment on the details of Rosen’s case. But spokesperson Ian Michaels says that the hospital’s screening process is rigorous and comprehensive, and assesses each donor’s motivation. “All donors are clearly advised that it is against the law to receive money or gifts for being an organ donor,” he says. “The pretransplant evaluation may not detect premeditated and skillful attempts to subvert and defraud the evaluation process.”

Because many people do donate organs out of kindness, altruism provides an easy cover for those seeking to profit. And U.S. laws can be easy to circumvent, especially for foreign patients who may pay cash and are often gone in the space of a day. Diflo, who has worked in numerous transplant wards over the past two decades, says that while they are in the minority, hospitals that perform illegal transplants certainly exist in the United States. “There are a couple places around that have reputations for doing transplants with paid donors, and then some hospitals that have a ‘don’t ask, don’t tell’ policy,” he says. “It’s definitely happening, but it’s difficult to ferret out.”

Diflo became an outspoken advocate for reform several years ago, when he discovered that, rather than risk dying on the U.S. wait list, many of his wealthier dialysis patients had their transplants done in China. There they could purchase the kidneys of executed prisoners. In India, Lawrence Cohen, another UC Berkeley anthropologist, found that women were being forced by their husbands to sell organs to foreign buyers in order to contribute to the family’s income, or to provide for the dowry of a daughter. But while the WHO estimates that organ-trafficking networks are widespread and growing, it says that reliable data are almost impossible to come by. “Nancy has done truly courageous work, literally risking her life to expose these networks,” says Delmonico. “But anecdotes are impossible to quantify.”

Scheper-Hughes acknowledges that in gathering these anecdotes she has frequently bumped up against the ethical boundaries of her own profession. While UC Berkeley (which funds most of her work) granted special permission for her to go undercover, she still takes heat from colleagues: misrepresenting oneself to research subjects violates a cardinal rule of academic research. “I expect my methods to be met with criticism,” she says. “But being an anthropologist should not mean being a bystander to crimes against the vulnerable.”

While Rosen has fared well since the surgery—he recovered quickly, used the money to travel and stays in touch with his kidney recipient via Facebook—most of the donors Scheper-Hughes and her colleagues have spoken with are not so lucky. Studies show that the health risks posed by donating a kidney are negligible, but those studies were all done in developed countries. “Recovery from surgery is much more difficult when you don’t have clean water or decent food,” says Scheper-Hughes. And research on the long-term effects of organ donation—in any country—is all but nonexistent.

Last may, Scheper-Hughes once again found herself sitting across from a group of transplant surgeons. This time they were not as incredulous. More than 100 of them had come from around the world to Istanbul for a global conference on organ trafficking. Together, they wrote and signed the Declaration of Istanbul, an international agreement vowing to stop the commodification of human organs. But unless their document is followed by action, it will be no match for the thriving organ market. Even as illegal trade is exposed, a roster of Web sites promising to match desperate dialysis patients with altruistic strangers continues to proliferate unchecked. These sites have some surgeons worried. “We have no way to tell if money is changing hands or not,” says Diflo. “People who need transplants end up trying to sell themselves to potential donors, saying, ‘I have a nice family, I go to church,’ etc. Is that really how we want to allocate organs?”

Maybe not. But in the United States, the average wait time for a kidney is expected to increase to 10 years by 2010. Most dialysis patients die in half that time, and the desperate don’t always play by the rules.

http://www.newsweek.com/id/178873

Leia mais em:

Are Kidneys a Commodity?

http://www.newsweek.com/id/137544?tid=relatedcl

Organ Brokers

http://www.socyberty.com/Crime/Organ-Brokers.470441


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